Mostrando postagens com marcador Outros Poemas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Outros Poemas. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 14 de maio de 2012

NASCE

               
 AQUI CHEGUEI,AOS LIMITES
ONDE NÃO É PRECISO FALAR.
TODO SE APRENDE COM O TEMPO E
O OCEANO,
A LUA APARECIA
COMAS SUAS LINHAS PRATEADAS
E AOS POUCOS DESFAZIA-SE A SOMBRA
COM UM GOLPE DE ONDA
E NA VARANDA DO MAR O DIA
ABRE AS ASAS,NASCE O FOGO
E TUDO CONTINUA AZUL COMO AMANHÃ.
     
            PABLO NERUDA   PLENOS PODERES

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Talvez




Talvez não ser,
é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando
o meio dia com uma
flor azul,
sem que caminhes mais tarde
pela névoa e pelos tijolos,
sem essa luz que levas na mão
que, talvez, outros não verão dourada,
que talvez ninguém
soube que crescia
como a origem vermelha da rosa,
sem que sejas, enfim,
sem que viesses brusca, incitante
conhecer a minha vida,
rajada de roseira,
trigo do vento,
E desde então, sou porque tu és
E desde então és
sou e somos...
E por amor
Serei... Serás...Seremos...


Pablo Neruda

quinta-feira, 23 de junho de 2011

O Meu Olhar

     
     O meu olhar é nítido como um girassol. 
     Tenho o costume de andar pelas estradas 
     Olhando para a direita e para a esquerda, 
     E de, vez em quando olhando para trás... 
     E o que vejo a cada momento 
     É aquilo que nunca antes eu tinha visto, 
     E eu sei dar por isso muito bem... 
     Sei ter o pasmo essencial 
     Que tem uma criança se, ao nascer, 
     Reparasse que nascera deveras... 
     Sinto-me nascido a cada momento 
     Para a eterna novidade do Mundo...


     Creio no mundo como num malmequer,
     Porque o vejo.  Mas não penso nele
     Porque pensar é não compreender ...

     O Mundo não se fez para pensarmos nele
     (Pensar é estar doente dos olhos)                  
     Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

     Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
     Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
     Mas porque a amo, e amo-a por isso,
     Porque quem ama nunca sabe o que ama
     Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...
     Amar é a eterna inocência,
     E a única inocência não pensar...

Alberto Caiero

sexta-feira, 17 de junho de 2011

A DANÇA DA PSIQUE







A dança dos encéfalos acesos
Começa. A carne é fogo. A alma arde. A
[espaços
As cabeças, as mãos, os pés e os braços
Tombam, cedendo à ação de ignotos pesos!

É então que a vaga dos instintos presos
- Mãe de esterilidades e cansaços -
Atira os pensamentos mais devassos
Contra os ossos cranianos indefesos.

Subitamente a cerebral coréia
Pára. O cosmos sintético da Idéia
Surge. Emoções extraordinárias sinto...

Arranco do meu crânio as nebulosas.
E acho um feixe de forças prodigiosas
Sustentando dois monstros: a alma e o instinto!

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Soneto da separação



De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.


Vinícius de Moraes

quinta-feira, 9 de junho de 2011

O Poço



Cais, às vezes, afundas
em teu fosso de silêncio,
em teu abismo de orgulhosa cólera,
e mal consegues
voltar, trazendo restos
do que achaste
pelas profunduras da tua existência.

Meu amor, o que encontras
em teu poço fechado?
Algas, pântanos, rochas?
O que vês, de olhos cegos,
rancorosa e ferida?

Não acharás, amor,
no poço em que cais
o que na altura guardo para ti:
um ramo de jasmins todo orvalhado,
um beijo mais profundo que esse abismo.

Não me temas, não caias
de novo em teu rancor.
Sacode a minha palavra que te veio ferir
e deixa que ela voe pela janela aberta.
Ela voltará a ferir-me
sem que tu a dirijas,
porque foi carregada com um instante duro
e esse instante será desarmado em meu peito.

Radiosa me sorri
se minha boca fere.
Não sou um pastor doce
como em contos de fadas,
mas um lenhador que comparte contigo
terras, vento e espinhos das montanhas.

Dá-me amor, me sorri
e me ajuda a ser bom.
Não te firas em mim, seria inútil,
não me firas a mim porque te feres.

Pablo Neruda

SAMADHI


Paramahansa Yogananda
Desfizeram-se os véus de luz e sombra,
Evaporou-se toda bruma de tristeza;
Singrou para longe todo amanhecer de alegria transitória,
Desvaneceu-se a turva miragem dos sentidos.
Amor, ódio,saúde, doença, vida, morte:
Extinguiram-se estas sombras falsas na tela da dualidade.

A tempestade de maya serenou
Pela varinha mágica da intuição profunda.
Presente, passado, futuro já não existem para mim,
Somente o Eu sempre-presente, fluindo em tudo, Eu, em toda parte.
Planetas, estrelas, poeira de constelações, terra,
Erupções vulcânicas de cataclismos do juízo final,
A fornalha modeladora da criação,
Geleiras de silenciosos raio X, dilúvios de elétrons ardentes
Pensamentos de todos os homens, pretéritos, presentes, futuros,
Toda folhinha de grama,eu mesmo, a humanidade;
Cada partícula da poeira universal,
Raiva, ambição, bem mal, salvação, luxúria,
Tudo assimilei, tudo transmutei
no vasto oceano de sangue de meu próprio Ser indiviso.

Júbilo em brasa, freguentemente abanado pela meditação,
cegando meus olhos marejados;
Explodiu em labaredas imortais de bem aventurança,
consumiu minhas lágrimas, meus limites, meu todo.

Tu és Eu; Eu sou Tu,
o conhecer, o Conhecedor. o Conhecido, unificados!
Palpitação tranguila, inenterrupta, paz sempre nova, eternamente viva.
Deleite transcendente a todas as expectativas da imaginação, beatitude
do samadhi!

Nem estado inconsciente,
Nem clorofórmio mental sem regresso voluntário
Samadhi amplia meu reino consciente
Para além dos limites da minha moldura mortal
Até a mais longínqua fronteira da eternidade,
Onde Eu, o mar Cósmico
Observo o pequeno ego flutuando em Mim.

Ouvem-se, dos átomos, murmúrios movediços;
OM, vibração criadora que exterioriza
toda a criação 
A terra escura, montanhas, vales... oh, líquidos em fusão!
Mares fluindo convertem-se em vapores de nebulosas!
OM sopra sobre os vapores, abrindo magníficamente seus véus,
Até que, ao último som do tambor cósmico
Transfundem-se as luzes mais densas em raios eternos
De bem-aventurança que tudo permeia.
Da alegria eu vim, para alegria eu vivo, na sagrada alegria me
disssolvo.

Os quatro véus, sólido, líquido vapor e luz,
Bem aventurados
Eu, em tudo, penetro no Grande EU.
Extintas para sempre as vacilantes,tremeluzentes sombras das
lembranças mortais:

Imaculadoé meu céu mental-abaixo,à frente e bem acima;
Eternidade e Eu, um só raio unido.
Pequenina bolha de riso, eu
Me converti no próprio Mar da Alegria.
_____________________________________

Fonte: Autobiografia de um Iogue, pg 162-163

domingo, 5 de junho de 2011

VENDAVAL

    Ó vento do norte, tão fundo e tão frio, Não achas, soprando por tanta solidão, Deserto, penhasco, coval mais vazio Que o meu coração! Indômita praia, que a raiva do oceano Faz louco lugar, caverna sem fim, Não são tão deixados do alegre e do humano Como a alma que há em mim! Mas dura planície, praia atra em fereza, Só têm a tristeza que a gente lhes vê E nisto que em mim é vácuo e tristeza É o visto o que vê. Ah, mágoa de ter consciência da vida! Tu, vento do norte, teimoso, iracundo, Que rasgas os robles - teu pulso divida Minh'alma do mundo! Ah, se, como levas as folhas e a areia, A alma que tenho pudesses levar - Fosse pr'onde fosse, pra longe da idéia De eu ter que pensar! Abismo da noite, da chuva, do vento, Mar torvo do caos que parece volver - Porque é que não entras no meu pensamento Para ele morrer? Horror de ser sempre com vida a consciência! Horror de sentir a alma sempre a pensar! Arranca-me, é vento; do chão da existência, De ser um lugar! E, pela alta noite que fazes mais escura, Pelo caos furioso que crias no mundo, Dissolve em areia esta minha amargura, Meu tédio profundo. E contra as vidraças dos que há que têm lares, Telhados daqueles que têm razão, Atira, já pária desfeito dos ares, O meu coração! Meu coração triste, meu coração ermo, Tornado a substância dispersa e negada Do vento sem forma, da noite sem termo, Do abismo e do nada!
    Fernando Pessoa, 16-2-1920.

domingo, 29 de maio de 2011

CANÇÃO DE MIM MESMO


Folhas de relva
Walt Whitman


EU CELEBRO a mim mesmo, 
E o que eu assumo você vai assumir,
Pois cada átomo que pertence a mim pertence a
                                    [ você.

Vadio e convido minha alma,
Me deito e vadio à vontade .... observando uma
                            [ lâmina de grama do verão.

Casas e quartos se enchem de perfumes .... as
        [ estantes estão entulhadas de perfumes,
Respiro o aroma eu mesmo, e gosto e o
        [ reconheço,
Sua destilação poderia me intoxicar também,
        [ mas não deixo.

A atmosfera não é nenhum perfume .... não tem
        [ gosto de destilação .... é inodoro, 
É pra minha boca apenas e pra sempre .... estou
        [ apaixonado por ela, 
Vou até a margem junto à mata sem disfarces e
        [ pelado, 
Louco pra que ela faça contato comigo.

A fumaça de minha própria respiração,
Ecos, ondulações, zunzuns e sussurros .... raiz
[ de amaranto, fio de seda, forquilha e videira, 
Minha respiração minha inspiração .... a batida
    [ do meu coração .... passagem de sangue e
    [ ar por meus pulmões, 
O aroma das folhas verdes e das folhas secas, 
    [ da praia e das rochas marinhas de cores
    [ escuras, e do feno na tulha, 
O som das palavras bafejadas por minha voz ....
    [ palavras disparadas nos redemoinhos do
    [ vento,
Uns beijos de leve .... alguns agarros .... o
    [ afago dos braços,
Jogo de luz e sombra nas árvores enquanto
    [ oscilam seus galhos sutis,
Delícia de estar só ou no agito das ruas, ou pelos
    [ campos e encostas de colina,
Sensação de bem-estar .... apito do meio-dia
    [ .... a canção de mim mesmo se erguendo 
    [ da cama e cruzando com o sol.

 

Uma criança disse, O que é a relva?trazendo um
     [ tufo em suas mãos;
O que dizer a ela ?.... sei tanto quanto ela o que
     [ é a relva.

Vai ver é a bandeira do meu estado de espírito,
  [ tecida de uma substância de esperança verde.
Vai ver é o lenço do Senhor,
Um presente perfumado e o lembrete derrubado
  [ por querer,
Com o nome do dono bordado num canto, pra que possamos ver e examinar, e dizer
      É seu ?

 
O blablablá das ruas .... rodas de carros e o
     [ baque das botas e papos dos pedestres,
O ônibus pesado, o cobrador de polegar
     [ interrogativo, o tinir das ferraduras dos
     [ cavalos no chão de granito.
O carnaval de trenós, o retinir de piadas
     [ berradas e guerras de bolas de neve ;
Os gritos de urra aos preferidos do povo ....
     [ o tumulto da multidão furiosa,
O ruflar das cortinas da liteira — dentro um
     [ doente a caminho do hospital,
O confronto de inimigos, súbito insulto,
     [ socos e quedas,
A multidão excitada — o policial e sua estrela
     [ apressado forçando passagem até o centro
     [ da multidão;
As pedras impassíveis levando e devolvendo
     [ tantos ecos,
As almas se movendo .... será que são invisíveis
     [ enquanto o mínimo átomo é visível ?
Que gemidos de glutões ou famintos que
     [ esmorecem e desmaiam de insolação
     [ ou de surtos,
Que gritos de grávidas pegas de surpresa,
     [ correndo pra casa pra parir,
Que fala sepulta e viva vibra sempre aqui....
     [ quantos uivos reprimidos pelo decoro, Prisões de criminosos, truques, propostas
     [ indecentes, consentimentos, rejeições de
     [ lábios convexos,
Estou atento a tudo e as suas ressonâncias ....
     [ estou sempre chegando.

 

Sou o poeta do corpo,
E sou o poeta da alma.

Os prazeres do céu estão comigo, os pesares do
     [ inferno estão comigo,
Aqueles, enxerto e faço crescer em mim mesmo
     [ .... estes, traduzo numa nova língua.

Sou o poeta da mulher tanto quanto do homem,
E digo que é tão bom ser mulher quanto ser
     [ homem,
E digo que não há nada maior que a mãe dos
     [ homens.


Vadio uma jornada perpétua,
Meus sinais são uma capa de chuva e sapatos
      [ confortáveis e um cajado arrancado
      [ do mato ;
Nenhum amigo fica confortável em minha
      [ cadeira,
Não tenho cátedra, igreja, nem filosofia;
Não conduzo ninguém à mesa de jantar ou à
      [ biblioteca ou à bolsa de valores,
Mas conduzo a uma colina cada homem e mulher
      [ entre vocês,
Minha mão esquerda enlaça sua cintura,
Minha mão direita aponta paisagens de
      [ continentes, e a estrada pública.

Nem eu nem ninguém vai percorrer essa estrada
      [ pra você,
Você tem que percorrê-la sozinho.

Não é tão longe assim .... está ao seu alcance,
Talvez você tenha andado nela a vida toda e não
      [ sabia,
Talvez a estrada esteja em toda parte sobre a
      [ água e sobre a terra.

Pegue sua bagagem, eu pego a minha, vamos em
      [ frente;
Toparemos com cidades maravilhosas e nações
      [ livres no caminho.

Se você se cansar, entrega os fardos, descansa a
      [ mão macia em meu quadril,
E quando for a hora você fará o mesmo por mim;
Pois depois de partir não vamos mais parar.

domingo, 22 de maio de 2011

Clarice por Clarice 10

“Uma vez eu irei. Uma vez irei sozinha, sem minha alma dessa vez. O espírito, eu o terei entregue à família e aos amigos com recomendações. Não será difícil cuidar dele, exige pouco, às vezes se alimenta com jornais mesmo. Não será difícil levá-lo ao cinema, quando se vai. Minha alma eu a deixarei, qualquer animal a abrigará: serão férias em outra paisagem, olhando através de qualquer janela dita da alma, qualquer janela de olhos de gato ou de cão. De tigre, eu preferiria. Meu corpo, esse serei obrigada a levar. Mas dir-lhe-ei antes: vem comigo, como única valise, segue-me como um cão. E irei à frente, sozinha, finalmente cega para os erros do mundo, até que talvez encontre no ar algum bólide que me rebente. Não é a violência que eu procuro, mas uma força ainda não classificada mas que nem por isso deixará de existir no mínimo silêncio que se locomove. Nesse instante há muito que o sangue já terá desaparecido. Não sei como explicar que, sem alma, sem espírito, e um corpo morto — serei ainda eu, horrivelmente esperta. Mas dois e dois são quatro e isso é o contrário de uma solução, é beco sem saída, puro problema enrodilhado em si. Para voltar de ‘dois e dois são quatro’ é preciso voltar, fingir saudade, encontrar o espírito entregue aos amigos, e dizer: como você engordou! Satisfeita até o gargalo pelos seres que mais amo. Estou morrendo meu espírito, sinto isso, sinto...”


Clarice Lispector

domingo, 15 de maio de 2011

Debaixo da cajazeira

Debaxo da cajazêira,
fiz uma cama de fôia,
prá gazaiá nosso amô!...
E só pruquê eu disse o nome,
teu nome, cabôca ingrata,
o vento, vindo das mata,
cobriu a cama de frô!

Eu te esperei tôda a noite,
inté que rompendo o dia,
a Sôdade, que se ria,
cum pena da minha dô,
tendo passado cumigo,
sem drumí, a noite intêra,
debaxo da cajazêra
viu a cama... e se deito.

____________
Catullo da Paixão Cearense
Livro: Meu Sertão, pg 179 - 14ª ed.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...